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Tradições

As tradições cristãs da época de Natal e do Fim do Ano da Madeira fazem parte da alma do povo madeirense. Durante todo o mês de Dezembro e até ao dia de Reis, no dia 5 de Janeiro, vive-se esta quadra na sua plenitude, combinando as manifestações de cariz religioso e a alegria pela chegada de um novo ano, com um rico programa de eventos culturais, etnográficos e artísticos.

A "Lapinha"
Uma das melhores representações do nascimento do Menino Jesus, em Belém, encontra-se na "lapinha", designação atribuída ao presépio madeirense.
A lapinha madeirense é a reprodução da própria paisagem da ilha numa fantasiosa interpretação - casinhas, pastores, ovelhas, bandas de música, matança do porco, procissões, romarias, igrejas, cenas do quotidiano da nossa terra; fruta da época, a verdura dos campos, as searas, os cantares e rituais, bolos de mel, broas, anonas e abacates e uma alegria sincera irradia da palavra NATAL. A Natividade é representada numa lapa ou gruta, rodeada de lombos, lombadas, vales e quedas de água, "povoada" por um casario disperso onde caminhos e veredas orientam as figuras dos Reis Magos, pastores e ovelhas, para o "centro" da devoção do ato natalício, onde o Menino descansa no berço junto à manjedoura. Na ornamentação, são utilizados os produtos da terra, as frutas, os alegra-campos, as cabrinhas e várias espécies de musgos e de líquenes. As searinhas em pequenos vasos, decoram outros espaços nos presépios, no desígnio popular de obter a bênção do Menino para boas colheitas no cultivo das hortas madeirenses. Estas searas podem ser de trigo, milho, lentilhas, favas, ervilhas e tremoços, conforme as localidades, mas as mais usadas são as de trigo e milho. O presépio madeirense, conhecido por "escadinha", é montado poucos dias antes do Natal sobre uma escadaria em madeira, decorada com searinhas de centeio ou de trigo, imagens de burros, ovelhas e cabrinhas, "brindeiros" (pães pequeninos), frutas da época (peros, tomate inglês e tangerinas) e uma lamparina a óleo. A escadinha reproduz o altar onde o Menino é enaltecido no cimo do último degrau encimado por um arco florido, uma espécie de baldaquino de alegra-campo e flores. Terá sido introduzido pelos primeiros colonos algarvios. A tradição da escadinha é habitual no Algarve e nos Açores e ainda hoje é usada no Brasil. A par da construção dos presépios, também se procede à decoração dos pinheiros de Natal. As árvores são decoradas ao gosto de cada um, com gambiarras de luzes, bolas e velas de várias cores, lágrimas ou laços e coroadas com uma estrela que alude à estrela que guiou os Reis Magos até Belém.

"Missas do Parto"
O Natal inicia-se com as "Missas do Parto" a partir do dia 16 de dezembro e terminam na véspera do Dia de Natal, com a missa do galo. As "Missas do Parto" - as novenas- são nove, no seu total e celebram-se de madrugada. Depois da missa, no adro da igreja os crentes reúnem-se para ouvirem os cânticos, acompanhados por grupos de cordas, acordeões e castanholas e onde não faltam os "despiques" a que se segue o "mata-bicho" com as aguardentes, licores, broas e bolos.
Em algumas freguesias da Madeira, como Câmara de Lobos e Camacha, mantém-se a tradiƧão das bandas filarmónicas, acompanhadas por outros tocadores de instrumentos, como castanholas, bombos, braguinhas ou acordeões, irem de porta em porta, numa sinfonia alegre, despertar os habitantes e apressá-los para este ritual típico da nossa terra.

A Noite do Mercado
No dia 23 de Dezembro os madeirenses efetuam as últimas compras de Natal e é nesta azáfama que melhor se sente o espírito da "Festa", designação conferida pelo povo madeirense ao Natal.
Os habitantes deslocam-se até ao Mercado dos Lavradores para adquirirem os últimos artigos para as suas decorações ou para confecionarem as restantes iguarias da época.
O Mercado torna-se, assim, pequeno para tanta procura. As ruas circundantes, que se encontram encerradas ao trânsito e são ocupadas por diversos postos de venda abertos durante toda a noite, apresentam variados produtos regionais como flores, arbustos, frutas, legumes, doces, sandes de carne vinho-e-alhos e bebidas típicas, como a poncha.
Ao cair da noite decorre a maior atração do dia, um espetáculo de cânticos tradicionais de Natal onde os habitantes locais assumem o papel de verdadeiros artistas. Também a participação de bandas de música e ranchos folclóricos ajudam a manter o ambiente de festa e de muita animação até ao amanhecer.

Cantar dos Reis
Findas as Festas de Fim do Ano, as festividades e os "folguedos" estendem-se até meados de Janeiro. Durante esse período, celebram-se missas em louvor ao Menino Jesus e conserva-se o presépio armado em muitas das casas madeirenses.
No dia 6 de Janeiro comemora-se a chegada dos Reis Magos com o famoso Bolo-Rei que traz no seu interior uma fava e um brinde. Diz a tradição que a quem, por sorte, calhar a fatia que contém a fava terá de comprar o bolo no ano seguinte e a quem calhar o brinde terá de comprar as bebidas.
Na noite de 5 para 6 de Janeiro cantam-se os Reis em casa dos vizinhos, e um pouco por toda a parte. Os homens trazem instrumentos regionais (a viola de arame, a braguinha, o rajão e os ferrinhos) e as mulheres os mantimentos para a noite (vinho, pão fresco, doces, etc.).
Uma vez chegada a comitiva à casa de quem se vai "cantar os Reis", estabelece-se um desafio musical improvisado entre os que estão fora e os que estão dentro de casa até a porta se abrir. Hoje em dia são várias as maneiras de "cantar os Reis", há quem recorra às cantigas antigas e há quem aprecie o improviso para homenagear os Reis.
O Cantar dos Reis na Madeira, eventualmente, poderá ter origem nas "Janeiras", cantadas no continente português e introduzidas na Madeira pelos povoadores

Letras:
É na freguesia de São Martinho, no Funchal, que a tradição de "cantar os Reis" está mais enraizada. Este ritual inicia-se com a concentração dos "cantores" no adro da igreja, que seguem posteriormente para as casas a visitar.

Invitório:

Bem sabeis que hoje é o dia, Ai
Que nasceu Nosso Senhor,
Na lapinha de Belém, Ai
Para nosso Redentor

Para nosso redentor, Ai.
Lá no céu foi aclamado.
Lá o vereis em Belém, Ai.
Numas palhinhas deitado, Ai.

Numas palhinhas deitado, Ai.
P'ra desprezar a riqueza,
Sendo Ele o rei dos Reis, Ai.
Senhor de toda a grandeza

Ao adorar o Menino, Ai
Os três Reis, com alegria
Ajoelhados em terra, Ai.
Aos pés da Virgem Maria

Aos pés da Virgem Maria, Ai.
Guiados por uma luz
Acabemos de cantar, Ai
Seja connosco, Jesus.

Agora, com uma música mais alegre, tentam acordar os moradores:

Os louvores dos Reis:

Acordai, Senhora,
Se ouvir quereis;
Vinde ouvir louvores
Dos três santos Reis

Recordai, Senhora.
Dessa tal vidraça,
Oh bendito fruto...
Sois cheia de graça

Sois jasmim cheiroso
Plantado na ribeira.
Sois branca açucena,
Formosa oliveira

Formosa oliveira,
Sois a luz celeste;
Canto imperador,
Onde o sol se veste

Para que a porta se abra, cantam uma Avé-Maria à Mãe de Deus.

A Avé-Maria:

Ò virgem sob'rana,
Sois a luz do dia
Os anjos t'aclamam,
Pela Avé-Maria

Sois rosa bendita,
Preciosa sarça,
Sois sacrário vivo,
Sois cheia de graça

Oh! Bela Mãe temos!
A 'strela do norte,
Agora e na hora
Da nossa morte

Oh! Rica Mãe temos!
A virgem da luz.
Oh! Digamos todos:
ámen Jesus.

Como os moradores tardam em acordar, cantam ao desafio até os acordar.

Trovas ao desafio:

As estrelas miudinhas
Fazem o céu bem composto.
Os vizinhos que desculpem,
Se os Reis não são do seu gosto

Para virmos aqui, hoje,
Muitos passos houve a dar.
Os vizinhos que desculpem
De virmos sem convidar.

Eu venho cantar os Reis,
Do lado da Nazaré.
ó vizinha, abra-me a porta,
Se quer saber quem é.

Para virmos hoje aqui
Só pensei, ont'à tardinha
ó vizinha, abra-me a porta,
Trago aqui uma galinha.

A família levanta-se então e prepara-se para abrir a porta.

A última súplica:

A foice que apanha a erva,
E, lá, lá, lá, ri, lá, lá, lá.
Também apanha trevisco
Ò vizinha, abra-me a porta,

E, lá, lá, lá, ri, lá, lá, lá.
P'las cinco chagas de Cristo
As chagas de Jesus Cristo,
E, lá, lá, lá, ri, lá, lá, lá.

Não deixam pelo chão
Ò vizinha, abra-me a porta,
E, lá, lá, lá, ri, lá, lá, lá.
Tenha de nós compaixão.

Abre-se a porta, depois de apagadas todas as luzes. O dono da casa surge e é recebido com uma salva de palmas:

A abertura da porta:

Nesta casa não há lume,
Vamos buscá-lo ao bugio.
Graças a deus para sempre,
Que esta porta se abriu

Nesta casa não há lume,
Vamos buscá-lo à Deserta.
Graças a deus para sempre
Que esta porta já está aberta.


Depois de acesas as luzes da casa, e perante a família reunida, o dono da casa convida os visitantes a entrar.

A entrada:

Viva o cravo. Viva a rosa.
Viva a flor de laranjeira.
Viva o dono desta casa
Mais a sua companheira.

Viva o cravo. Viva a rosa.
Viva a flor da maravilha.
Viva o dono desta casa,
Mais toda a sua família

Viva o cravo. Viva a rosa.
Viva a flor de jasmim.
Viva o dono desta casa.
Quer dormir e fica assim.

Viva o cravo. Viva a rosa.
Viva a flor do não-me-deixa.
Viva o dono desta casa.
Quer dormir e não o deixa.

Os visitantes cumprimentam toda a família. Em seguida, a dona da casa serve doces e vinho, restos da Festa do Natal. Posteriormente, inicia-se o "folguedo", que se prolongará até altas horas da madrugada.

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